A RCC e a Gula Espiritual

pentecostais

“Mas ninguém pode, à medida de seus desejos, gozar dessas divinas consolações, porque a tentação não cessa por muito tempo” (1).

Grandes autores explicam que uma “primeira conversão” acontece quando se abandona a vida de pecado e entra-se em estado de graça; quer seja pelo Batismo, quer seja pela contrição seguida da Confissão. Assim, introduz-se, segundo Adolph Tanquerey, na Via Purgativa, que é o estágio da purificação da alma “no intuito de se chegar à união íntima com Deus” (2).

A alma que assim se encontra deve buscar a perfeição (3), pois se acha, ainda, apegada a muitos pecados veniais e, por vezes, recaem nos mortais. Desta forma, para melhor percorrer tal caminho, Deus, na sua infinita Sabedoria, age em nosso favor:

“Costumo recompensar toda boa ação e com maior ou menor liberalidade conforme a medida do amor de quem a pratica; por isso, concedo consolações espirituais aos meus servidores imperfeitos, durante a oração. Ajo de tal forma, não para que apreciem tais satisfações erroneamente, isto é, atribuindo maior valor ao dom que ao doador, que sou eu. Meu desejo é que tomem consciência do meu amor e da própria indignidade, deixando o prazer em segundo plano. O engano consistirá em agir diversamente” (4).

Portanto, deve-se olhar e amar a quem concede; não o que é concedido.

A busca desenfreada dessas consolações espirituais dadas por Deus à alma em seu estágio de purificação é o que se chama de Gula Espiritual. E, isso é claramente patrocinado pela RCC.

As consolações tornam-se imprescindíveis a todo fiel que participa desse movimento, seja nos grupinhos de oração, seja nos grandes encontros. Caso, nesses eventos, o fiel nada esteja sentindo, suspeita-se logo que há algo de errado. Acontece que as legítimas consolações dadas por Deus têm um propósito e não duram muito tempo… Antes, devem passar.

Pois, assim diz o Senhor:

“Para que se encaminhe à perfeição, aos poucos vou me afastando da alma quanto às consolações, sem retirar-lhe a graça” (5).

Neste sentido, a Renovação Carismática Católica luta contra Deus, não aceitando tal fato, buscando de todas as formas compensar contrariamente aquilo que Deus havia determinado! Isso é insídia demoníaca: Satanás, travestido de anjo de luz, “usa o anzol do prazer espiritual para atrair a alma, para prendê-la em suas mãos” (6).

Os meios que Satanás usa – por intermédio da RCC – para manter constantes e duradouras as consolações, são: as músicas, as Missas com caráter diverso e os pseudocarismas tão banalizados nesse movimento que arroga o nome de católico. Chegou-se ao ponto de ensinar técnicas – em um canal de TV – àqueles que têm dificuldades com o pretenso dom de línguas.

Tudo isso só faz evitar o progresso espiritual, pois a transição da Via Purgativa à Via Iluminativa (estágio mais avançado de conversão) pressupõe um estado de secura, de aridez espiritual. Assim, a alma – privada das consolações – suportando esse estágio com um vivo desejo de agradar a Deus e servi-lO, com o santo temor de ofendê-lO; submeterá cada vez mais a sensibilidade ao espírito (inteligência e vontade).

A RCC, simplesmente, impede tal progresso – como é desejo do demônio – colocando a alma em um estado de retardo, constantemente oferecendo – ou naturalmente, ou através do demônio – exacerbadas sensações deleitosas de tal forma que o fiel já não age sem antes considerar o que esteja sentindo ou o que possa sentir.

Tal inversão é a ruína da alma… Ora, assim como o olho (que sente coisa material) existe para a luz, mas que não se pode expô-lo à luz muito intensa (olha para o sol, por exemplo); também a sensibilidade, que existe para sentirmos alegria, raiva, ódio, tristeza etc., não pode ser exposta, desorientadamente, a sentimentos exacerbados!

Todo e qualquer sentimento deve ser orientado pela inteligência e pela vontade, potências da alma mais elevadas.

A Renovação Carismática Católica, como vimos, ignora totalmente isso… Senão, vejamos detalhadamente:

1 – As músicas

Característica marcante da RCC, em todos os seus encontros, é a presença de canções que instigam sentimentos de baixo nível; até, por vezes, sensuais. Músicas que ou induzem a prática de frenéticos movimentos, ou a uma letargia descomunal. Esta provoca um enervamento da Fé do fiel, que, por exemplo, passa a encarar o mundo como um novo Éden que há de vir; aquela provoca alucinações que fazem encarar tudo advindo do sobrenatural… Um simples resfriado é imediatamente taxado como vindo do diabo.

2 – Caráter diverso da Missa

Nas tais Missas de Cura, de Libertação etc., o caráter propiciatório do Sacrifício incruento de Nosso Senhor renovado no Altar é completamente negligenciado… Dá-se lugar, primeiramente e quase que exclusivamente, a uma celebração que existe para distribuir “graças”, sobretudo materiais.

Que não se negue o caráter impetratório da Missa, longe disso. Porém, o caráter propiciatório é o mais importante.

Mas, para a RCC, importa o sofrimento do povo; o de Cristo por nossas culpas é secundário.

São João da Cruz, explicando a falta de generosidade daqueles que só vêem as consolações querendo fugir do sofrimento, diz: “Ele (Deus) envia pequenas provações a uma alma e esta se mostra fraca, fugindo imediatamente a todo sofrimento, sem querer aceitar dor alguma… Deus então deixa de atuar para purificar esta alma… que quer ser perfeita recusando-se deixar-se levar pelo caminho das provações que forma os perfeitos” (7).

3 – Os pseudocarismas da RCC

Com seus pseudocarismas – Ai daqueles que não possuam pelo menos um dos “dons” carismáticos! – a RCC afasta o fiel do reto caminho da perfeição. No lugar da graça santificante, são esses falsos dons que precisam ser alcançados! No lugar da Caridade, são eles que precisam ser, diariamente, praticados!… Como diz certo monsenhor: “Ser chamados de cristãos é o mesmo que hoje ser chamado de carismático” (8).

Sobre os carismas que a RCC diz-se ter, Adolph Tanquerey afirma: “os grandes místicos são unânimes em ensinar que não se devem nem desejar nem pedir estes favores extraordinários. É que, de fato, não são meios necessários para se chegar à união divina; e às vezes até, por causa das nossas tendências más, são antes obstáculo à união divina” (9).

Por fim, nada melhor que recorrer àquele que é chamado “doutor da oração”, Santo Afonso de Ligório:

“A este propósito, o mencionado prelado [monsenhor Palafox] prescreve que estas graças sobrenaturais, que Deus dignou conceder a Santa Teresa e tem concedido a outros santos, não são necessárias para alcançar a santidade, porque muitas outras almas chegaram à santidade sem estas graças extraordinárias e até há muitas que, apesar de terem recebido aquelas graças, estão condenados. Portanto, diz ser coisa supérflua e presunçosa desejar e pedir tais dons sobrenaturais, quando o verdadeiro e único caminho para a santidade é o exercício de todas as virtudes…” (10).

É por desprezar tão sábias palavras do “doutor da oração” que a RCC pratica uma anti-virtude: a Gula Espiritual.

(1) De Kempis, Tomás; Imitação de Cristo, Ed. Paulus, pág. 120.

(2) Tanquerey, Adolph; Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Ed. Permanência, pág. 343.

(3) Mt 5, 48.

(4) Catarina de Sena, Santa; O Dialogo, Ed. Paulus, pág. 146.

(5) Catarina de Sena, Santa; O Dialogo, Ed. Paulus, pág. 135.

(6) Catarina de Sena, Santa; O Dialogo, Ed. Paulus, pág. 150.

(7) João da Cruz, São; Viva Chama, 2ª estrofe, verso V – item Cântico Espiritual, IV P, estrofe 39. Apud: Pe. Garrigou-Lagrange; As três Vias e As Três Conversões, Ed. Permanência, pág. 72.

(8) Jonas Abib, Monsenhor; “Apóstolos dos dons do Espírito”, Em:
http://www.cancaonova.com/portal/canais/pejonas/pejonas_msg_dia.php?id=16141

(9) Tanquerey, Adolph; Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Ed. Permanência, pág. 776.

(10) Afonso de Ligório, Santo; A Oração, Ed. Santuário, pág. 68.

Fonte:http://blog.missadesempre.com/2009/01/rcc-e-gula-espiritual.html

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Lazaro Laert

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