A FESTA NA CASA DE BABETE

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Por Pe. Marcelo Tenório

Desde o início de seu Pontificado, Francisco apresenta-se como um Papa diferente de todos os demais. Mas não diferente naquilo que é periférico, nos costumes, no gestual. Leão XIII, com sua forma meio interiorana e desajeitada;
Pio XI, autoritário, Pio XII, majestático, místico…

Mas com Francisco, a diferença é na essência e aí está a gravidade de tudo. Mesmo o seu gestual aponta o seu pensamento subjetivo e suas ações vão destruindo a simbologia católica que indica a verdade objetiva sobre Deus, a
Igreja e o homem.

Vimo-lo inclinado, na sacada da Basílica, para o povo. Pedia ao povo uma bênção, cuja fonte primeira reside na pessoa do próprio Vigário de Cristo, e faz parte do seu Sagrado e Tríplice Múnus: Governo, Ensino e Santificação.

A partir daí o veremos sempre inclinado…ao mundo. Ao pensamento do homem. Poderemos dizer, com certeza, que Francisco é a personificação do documento Gaudium et Spes do Vaticano II, mas já nas conseqûencias mais profundas
da letra e do espirito mesmo. A Gaudium et Spes é o documento conciliar, reconhecido pelo próprio papa Bento XVI como o “anti Syllabus”.

“Contentemo-nos aqui com a comprovação de que o documento desempenha o papel de um anti-Syllabus, e, em conseqüência, expressa a intenção de uma reconciliação oficial da Igreja com a nova época estabelecida a partir do ano
de 1789.” (Cardeal Joseph Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, Editorial Herder, Barcelona, 1985, pág. 457-458).”

Podemos assim definir Francisco: O papa do “Anti- Syllabus.”

Do gestual à prática ou da prática ao gestual. Já como cardeal, era comum Bergóglio frequentar reuniões protestantes, recebendo, ajoelhado, a bênção de pastores. Ora na mesquita, ora na sinagoga. E se seu gesto lembra o dos
papas conciliares, sua prática ecumênica consegue ir além: relativa a Verdade para valorizar acima de qualquer coisa o que é humano. Foi no andor de seu humanismo que Lutero triunfou no Vaticano, entrando pelo lado do Santo Ofício, numa estátua que foi colocada no auditório Paulo VI, escândalo sem precedentes na história.

Suas falas e seus escritos mostram todo o seu pensamento fundamentado no subjetivismo da fé. Não é linear e como consequência, a dúvida e a confusão. Nunca a Sala de Imprensa trabalhou tanto como agora, pois sempre deve explicar no reto o que o papa falou no esférico. Tentativa praticamente impossível e o resultado é o que temos. Quando um Papa, respondendo às acusações de heterodoxo, graceja que poderia tranquilamente fazer uma Profissão de Fé, é porque o mercúrio já estourou o termômetro.

A missão primeira do papa é nos confirmar na Fé. Para isso ele existe. Para isso o Ministério Petrino: afastar o erro e fazer resplandecer sempre a Verdade Católica. Nosso Senhor não entregou as chaves a Pedro para a confusão, mas para a preservação do rebanho de todo erro e de todo mal. A autoridade do papa está ligado à Verdade que ele deve cuidar e defender com a própria vida. E nesse caso a ação de um papa imoral ( e nos lembremos aqui de Alexandre VI) é bem menos grave do que quando um papa age obscurecendo a verdade católica ou favorecendo à heresia. E, voltando a Alexandre VI, o curioso é justamente nada encontrar contra a Santa Doutrina em seus pronunciamentos, apesar de sua vida devassa e pecaminosa.

Fomos surpreendidos com a atitude corajosa e pastoral de quatro cardeais que escreveram ao Papa pedindo-lhe esclarecimento sobre pontos do documento “Amoris Laetitia. Essa prática é rara, mas não estranha. Quando um Pontífice ensina notadamente um erro, ou algo não claro sobre a Fé, pelo bem das almas, o colégio dos cardeais pode interpelar ao papa sobre o assunto e o papa, por dever de estado, tem a obrigação em responder, esclarecendo, sanando dúvidas, ou até voltando atrás em
seus posicionamentos. Caso o Papa se recuse em fazê-lo, os mesmos cardeais, podem publicamente, declarar que há erros no ensinamento papal.

Os cardeais Walter Brandamuller, Raymond Burke, Carlo Cafarra e Joackim Meisner assim prosseguiram. Elencaram ao Papa Francisco vários pontos preocupantes em seu Documento AL e pediram, respeitosamente, da parte de Bergóglio, um esclarecimento. Notem que não se trata aqui de simples leigos, padres, ou até mesmo bispos, embora qualquer um batizado pode interpelar o Santo Padre. Tratam-se de Cardeais, de Príncipes da Igreja, que têm a missão – em comunhão com o Papa – de cuidar das coisas da Fé.

Resultado: O Papa Francisco não quis responder as interpelações cardinalícias e os eminentíssimos cardeais foram informados disso que sua carta ficaria sem resposta.

Mas por que o Papa não quis responder aos cardeais, ele que responde e se comunica com todo mundo, que dá entrevistas e mais entrevistas, que faz ligações telefônicas para conversar com este e aquele? Por que se negar ao Diálogo, ao importante diálogo, com os de dentro e que estão preocupados com Barca de Pedro, quando ele mesmo defende diálogo até com estado islâmico? A verdade é que Francisco não quer dialogar, quer executar. E aqui já não age como um simples “Bispo de Roma”, mas com toda autoridade que lhe foi concedida pelo Ministério Petrino.

Em tempos midiáticos, já se titulou João XXIII como o BOM, João Paulo II, como o GRANDE e Francisco, como o HUMILDE. Suas atitudes, após eleição, levaram-no a esta consagração popular. Despojou-se do trono papal, colocando no lugar uma cadeira. Despojou-se das vestes papais (murça, sapatos, estola petrina…). Despojou-se do solene isolamento, indo apertar as mãos do povo no Portão Sant´Ana… Despojou-se do palácio apostólico, indo morar num dos quartos da Santa Marta…

Mas a humildade é a consciência de si. E como dizia Sta. Teresa, ” Humildade é a Verdade”. Que bela atitude de despojamento, teria sido o acolhimento aos quatro cardeais, falando-lhes abertamente, num chazinho da tarde, em
qualquer cantinho simpático de seus aposentos…Já que Sua Santidade não gosta de formalidades, nem de protocolos, nem tão pouco de muros, seria uma bela oportunidade para um diálogo, um bom diálogo, frente a frente… São tantas as pessoas, de fora, que
conseguem isso de Francisco… e por que não, e sobretudo eles, os cardeais?

Mas a verdade é que Francisco respondeu. Mas não aos cardeais. Respondeu à mídia, ao Avvenire que o entrevistou. E, não pontuando as colocações respeitosas e profundamente teológicas que lhe foram colocadas pelos cardeais.
Respondeu de forma rápida, jocosa, com frases de humanidades:

FRANCISCO: “Fazer a experiência vivida do perdão que abraça toda a família humana é a graça que o ministério apostólico anuncia. A Igreja existe apenas como instrumento para comunicar aos homens o desígnio misericordioso de Deus. A Igreja sentiu no Concílio a responsabilidade de ser no mundo como que o sinal vivo do amor do Pai. Com a Lument Gentium retornou às fontes da sua natureza, ao Evangelho. Isso mudou o eixo da concepção cristã de um certo legalismo, que pode ser ideológico, à Pessoa de Deus, que se fez misericórdia na encarnação do Filho. Alguns — pensa a certas réplicas a Amoris Lætitia — continuam a não compreender — ou branco ou preto — que também é no fluxo da vida que se deve discernir….”

AVVENIRE: Há quem pense que nestes encontros ecumênicos se queira vender a preço baixo a doutrina católica. Alguém já disse que se quer “protestantizar” a Igreja.

FRANCISCO: Não me tira o sono. Eu continuo na estrada de quem me precedeu, continuo o Concílio. Quanto às opiniões, é preciso sempre distinguir o espírito com o qual são ditas. Quando não tem um espírito ruim, ajudam a caminhar. Outras vezes se vê de cara que as críticas se fazem aqui e ali para justificar uma posição já assumida, não são honestas, são feitas com espírito ruim, para fomentar a divisão. A gente vê logo que certos rigorismos nascem de uma falta, nascem da vontade de esconder dentro uma armadura, a própria e triste insatisfação. Vejam o filme “A festa de Babete”, ali há este comportamento rígido.

Após toda esta questão conflitosa, o papa, que não gosta de ser contraposto, cancelou o encontro com o Colégio dos Cardeias, encontro de praxe antes dos consistórios.Nesse encontro prévio é o momento em que o Papa escuta os cardeais e lhes pede opiniões . É de fato mais um ato incomum que acontece.

E se a barca de Pedro parece-nos afundar, em vez de corrermos, com baldes, para tirarmos a água que se acumula, somos convidados para uma Festa. A festa na Casa de Babete….

 

“Príncipe imperial” critica papa Francisco por convite a MST

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Até o príncipe, mas para os ‘costureiro’ de plantão dos discursos do Papa é tudo manipulação da mídia.

A pedido do deputado Lael Varella (DEM-MG) foi registrado nos Anais da Câmara o texto de uma longa mensagem enviada no dia 8 deste mês ao papa Francisco pelo dirigente da organização Paz no Campo, Bertrand de Orleans e Bragança – que é bisneto da princesa Isabel de Bragança e Bourbon e se apresenta como dom Bertrand, príncipe imperial do Brasil.

No texto, o suposto herdeiro imperial fala em consternação, choque e espanto diante do convite feito pela Academia Pontifícia de Ciências a João Pedro Stédile, do Movimento dos Sem Terra (MST), para participar de um seminário sobre exclusão social, em Roma, com despesas pagas pelo Vaticano.

Segundo o autor da mensagem, Stédile não passa de um agitador de esquerda, defensor da luta de classes e dirigente de um movimento que, sob inspiração da Teologia da Libertação, “combate obstinadamente a propriedade privada, inclusive por meio de ações violentas”.

Dom Bertrand diz: “Não posso deixar de me perguntar, Santo Padre, qual a razão de que esse paladino de uma utopia revolucionária tão visceralmente anticristã e promotor da violação sistemática das leis tenha sido convidado.”

O encontro do qual Stédile participou, na condição de observador, aconteceu em Roma, no dia 5 de dezembro. A mensagem do bisneto da princesa foi postada mais de um mês depois, no dia 8 de janeiro, às vésperas do encontro nacional do MST em Brasília. O deputado Varella subiu à tribuna logo depois, no dia 12 – o mesmo dia em que os militantes do movimento marcharam pela Esplanada dos Ministérios e entraram em confronto com a polícia.

O texto também manifesta indignação pelo fato de ter sido convidado para o mesmo seminário no Vaticano o argentino Juan Grabois. Ele pertence ao Movimento de Trabalhadores Excluídos, que reúne catadores de papel, e foi um dos fundadores da Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular da Argentina. Segundo o missivista, “esse advogado e militante da esquerda peronista não esconde suas convicções abertamente marxistas”.

Os integrantes do Movimento Paz no Campo, coordenado por dom Bertrand, se consideram herdeiros da antiga Tradição, Família e Propriedade (TFP) – instituição de ultradireita, que se notabilizou nos anos 60 e 70 pelo apoio ao golpe militar. Seu fundador, Plínio Correia de Oliveira, é o principal inspirador do autor da carta ao papa.

Por causa de uma briga entre grupos que disputam o espólio de Oliveira, o suposto herdeiro da família imperial, de 72 anos, está legalmente proibido de utilizar o nome da TFP. Enquanto continua a briga na Justiça, ele se abriga sob a sigla Paz no Campo. Quase sempre associa ao marxismo os movimentos sociais que envolvem a posse da terra, sejam eles ambientalistas, quilombolas, indígenas ou de sem terra.

Em seu cabeçalho, a carta ao papa é apresentada como “reverente e filial mensagem a Sua Santidade”. A leitura atenta, porém, revela sobretudo a indignação de um grupo ultraconservador em relação aos movimentos de Francisco.

Ao lembrar, por exemplo, que o papa já havia convidado o líder argentino para subir ao palanque na Praia da Copacabana, durante a Jornada Mundial da Juventude, além de lhe conceder uma audiência em sua residência, em Roma, o autor indaga se não estaria pendendo para o marxismo: “Envolveriam estes gestos de Vossa Santidade um apoio à linha traçada pelo ideólogo Juan Grabois?”

Em outro momento, a carta afirma: “Nos recintos do Vaticano ecoam as elucubrações anticapitalistas de Karl Marx.”

O título da mensagem – Quo vadis, Domine? (Aonde vais, Senhor?) – também é sintomático dessa preocupação

O nome do deputado Varella apareceu com destaque, em setembro do ano passado, numa reportagem do programa Fantástico, da TV Globo. Era sobre uma investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) envolvendo a locação de automóveis por parlamentares.

A investigação surgiu após a verificação de que um grupo de mais de vinte congressistas usavam serviços de empresas que não eram do ramo, como padaria, loja de material de construção, restaurante, revenda de material de limpeza. Varella alugava carros da empresa Faxinão.

Em sua defesa, o deputado disse que não havia nada de irregular na operação e que uma empresa pode legalmente ter dois tipos de negócio. “É comum. Não tem nada estranho. Não tem nada ilegal. Tem nota fiscal, tem contrato bem feito. Tudo pago com cheque nominal. Tudo bonitinho”, assegurou.

F: ESTADÃO

4 Cardeais pedem ao Papa Francisco que esclareça alguns pontos da Amoris Laetitia

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Foto referencial (Jeffrey Bruno ACI Prensa)

Para os costureiros (neoconservadores) dos discursos do Papa, é tudo manipulação da mídia, até os cardeais estão lendo ‘noticias falsas’.

ROMA, 14 Nov. 16 / 11:11 am (ACI).- No dia 19 de setembro, 4 cardeais escreveram ao Papa Francisco uma carta na qual pedem que esclareça 5 pontos da exortação apostólica Amoris Laetitia sobre o amor na família.

A carta, assinalam os cardeais, “nasce de uma profunda preocupação pastoral” e após encontrar “um grave desconcerto em muitos fiéis e uma grande confusão a respeito de questões muito importantes para a vida da Igreja”.

A missiva, divulgada nesta segunda-feira, 14 de novembro, pelo vaticanista italiano Sandro Magister através do seu site, é assinada por dois cardeais alemães, Walter Brandmüller e Joachim Meisner; o italiano Carlo Cafarra; e norte-americano Raymond Burke.

Os purpurados referem que escreveram ao Papa e ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal alemão Gerhard Müller, em um ato que consideram “de justiça e caridade”, de acordo com o direito canônico e em conformidade com a missão cardinalícia de colaborar com o ministério petrino.

Os cardeais indicam que “o Santo Padre decidiu não responder” à carta e, por isso, interpretam “esta sua decisão soberana como um convite a continuar a reflexão e a discussão serena e respeitosamente”.

“É por isso que informamos sobre nossa iniciativa a todo o povo de Deus, oferecendo toda a documentação”, acrescentam.

Os cardeais pedem, então, que “ninguém interprete o fato segundo o esquema ‘progressistas-conservadores’: seria uma completa má interpretação. Estamos profundamente preocupados pelo verdadeiro bem das almas, suprema lei da Igreja, e não por fazer progredir na Igreja qualquer forma de política”.

Do mesmo modo, assinalam, “é nosso desejo que ninguém nos julgue, injustamente, como adversários do Santo Padre e como pessoas sem misericórdia. O que fizemos e estamos fazendo nasce do profundo afeto colegial que nos une ao Papa e da apaixonada preocupação pelo bem dos fiéis”.

Na carta que os cardeais escreveram ao Papa Francisco, enumeram alguns dos problemas surgidos após as interpretações “não somente divergentes, mas também contraditórias, sobretudo, por causa do capítulo VIII (da Amoris Laetitia). Além disso, os meios de comunicação enfatizaram esta disputa, provocando incerteza, confusão e alarme entre muito fiéis”.

“Com profundo respeito, permitimo-nos pedir-lhe, Santo Padre, como supremo Mestre da Fé chamado pelo Ressuscitado a confirmar aos seus irmãos na fé, que dirima as incertezas e esclareça, dando benevolamente resposta às ‘Dúvidas’ que nos permitimos anexar à presente”, indicam.

As 5 dúvidas

Os cardeais chamam de “dúvidas” os assuntos que suscitam e indicam que se referem ao capítulo oitavo da exortação apostólica Amoris Laetitia, especificamente dos parágrafos 300 ao 305. São apresentadas para ser respondidas com um “sim” ou um “não”.

Os purpurados assinalam que “para muitos – bispos, párocos, fiéis –, esses parágrafos aludem, ou também ensinam explicitamente, uma mudança na disciplina da Igreja com relação aos divorciados que vivem uma nova união, enquanto outros, admitindo a falta de clareza ou ainda a ambiguidade das passagens em questão, argumentam, entretanto, que essas mesmas páginas podem ser lidas em continuidade com o magistério precedente e não contém uma modificação na prática e no ensinamento da Igreja”.

  1. Sobre a nota de rodapé número 351 do parágrafo 305

Esta é a pergunta que leva a explicação mais extensa e questiona se pode conceder a absolvição na confissão e admitir a comunhão eucarística aos divorciados em nova união.

“A nota de 351 – indicam os cardeais –, enquanto fala especificamente dos sacramentos da penitência e da comunhão, não menciona neste contexto os divorciados recasados civilmente, nem sequer no texto principal”.

O parágrafo 305 da Amoris Laetitia assinala que “por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio duma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja [351]”.

A nota de rodapé 351 assinala que “em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos”.

Em sua carta ao Papa Francisco, os 4 cardeais recordam os ensinamentos da exortação apostólica Familiaris Consortio de São João Paulo II, especificamente o numeral 84, no qual já se contemplava a possibilidade de admitir os sacramentos aos divorciados em nova união, segundo três condições:

– As pessoas interessadas não podem se separar sem cometer uma nova injustiça (por exemplo, poderiam ser responsável pela educação de seus filhos);

– Assumem o compromisso de viver segundo a verdade da sua situação, deixando de viver juntos como se fossem marido e mulher (“more uxorio”) e abstendo-se dos atos que são próprios dos cônjuges;

– Evitam dar escândalo (ou seja, evitam o aparecimento do pecado para evitar o risco de levar outros a pecar).

No entanto, prosseguem, “parece que se fosse admitida na comunhão os fiéis que se separaram, ou os divorciados do cônjuge legítimo que estão em uma nova união na qual vivem como se fossem marido e mulher, a Igreja ensinaria através desta prática de admissão uma das seguintes afirmações a respeito do matrimônio, da sexualidade humana e da natureza dos sacramentos”:

– “Um divórcio não dissolve o vínculo matrimonial e as pessoas que formam a nova união não estão casadas. Entretanto, as pessoas que não estão casadas podem, em certas condições, realizar legitimamente atos de intimidade sexual”.

– “Um divórcio dissolve o vínculo matrimonial. As pessoas que não estão casadas não podem realizar legitimamente atos sexuais. Os divorciados recasados são legitimamente esposos e seus atos sexuais são licitamente atos conjugais”.

– “Um divórcio não dissolve o vínculo matrimonial e as pessoas que formam a nova união não estão casadas. As pessoas que não estão casadas não podem realizar atos sexuais. Por isso, os divorciados recasados civilmente vivem em uma situação de pecado habitual, público, objetivo e grave”.

No entanto, admitir pessoas à Eucaristia, ressaltam os cardeais, “não significa para a Igreja aprovar seu estado de vida público; o fiel pode se aproximar à mesa eucarística também com a consciência de pecado grave”.

“Para receber a absolvição no sacramento da Penitência, nem sempre é necessário o propósito de mudar de vida. Em consequência, os sacramentos se separam da vida: os ritos cristãos e o culto estão em uma esfera diferente em relação à vida moral cristã”.

  1. Sobre o parágrafo 304

A pergunta dos 4 cardeais questiona se, todavia, é válido o ensinamento da igreja sobre se existem normas morais absolutas, válidas e sem exceção alguma.

O fundamento deste ensinamento, explicam os cardeais, está no parágrafo 79 da encíclica Veritatis Splendor (O Esplendor da Verdade) do Papa João Paulo II, que assinala que é possível “qualificar como moralmente má segundo a sua espécie (…) a escolha deliberada de alguns comportamentos ou atos determinados, prescindindo da intenção com que a escolha é feita ou da totalidade das consequências previsíveis daquele ato para todas as pessoas interessadas”.

“Segundo a ‘Veritatis Splendor’ – prosseguem – no caso de ações intrinsicamente más não é necessário nenhum discernimento das circunstâncias ou das intenções”.

  1. Sobre o parágrafo 301

A dúvida se refere a se é possível afirmar que “uma pessoa que vive habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como por exemplo o que proíbe o adultério, se encontra em situação objetiva de pecado grave habitual”.

No parágrafo 301, a exortação apostólica Amoris Laetitia assinala que “a Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes” e que “já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”.

A sustentação na pergunta deste parágrafo, dizem os 4 cardeais, está na declaração de 24 de junho de 2000 do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, que assinala que “não sejam admitidos à sagrada comunhão (… o que) obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”.

A declaração “afirma que este cânon é aplicável também aos fiéis divorciados que voltaram a casar civilmente. Esclarece que o ‘pecado grave’ deve ser compreendido objetivamente, dado que quem ministra a Eucaristia não tem os meios para julgar a imputabilidade subjetiva da pessoa”.

  1. Sobre o parágrafo 304

A pergunta dos cardeais é se é possível afirmar se é ainda é válido o ensinamento do Papa João Paulo II no numeral 81 da Veritatis Splendor, segundo a qual “as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato subjetivamente honesto ou defensível como opção”.

O parágrafo 302da exortação Amoris Laetitia sublinha que “um juízo negativo sobre uma situação objetiva não implica um juízo sobre a imputabilidade ou a culpabilidade da pessoa envolvida”.

Por isso, ressaltam os cardeais que assinam a carta enviada ao Papa em 19 de setembro, “a questão é se Amoris Laetitia concorda ao dizer que todo ato que transgride os mandamentos de Deus – como o adultério, o roubo, o falso testemunho – não pode se converter jamais, consideradas as circunstâncias que mitigam a responsabilidade pessoal, em desculpável ou até mesmo bom”.

  1. Sobre o parágrafo 303

A pergunta que os cardeais Brandmüller, Meisner, Cafarra e Burke formulam é se é possível afirmar que é válido o ensinamento de João Paulo II no numeral 56 da encíclica Veritatis Splendor, “que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência e afirma que esta nunca é autorizada para legitimar exceções às normas morais absolutas que proíbem ações intrinsecamente más por objeto”.

O numeral 303 da Amoris Laetitia afirma que a “consciência pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus”.

Os cardeais assinalam que “para todos os que propõem a ideia de consciência criativa, os preceitos da lei de Deus e a norma da consciência individual podem estar em tensão ou também em oposição, enquanto a consciência, que em última instância decide a respeito do bem e do mal, deveria ter sempre a palavra final”.

“Segundo Veritatis Splendor n. 56, ‘sobre esta base, pretende-se estabelecer a legitimidade de soluções chamadas pastorais, contrárias aos ensinamentos do Magistério, e justificar uma hermenêutica «criadora», segundo a qual a consciência moral não estaria de modo algum obrigada, em todos os casos, por um preceito negativo particular’. Nessa perspectiva, nunca será suficiente para a consciência moral saber que ‘isto é adultério’, ‘isto é homicídio’, para saber se se trata de algo que não pode e não deve ser feito. Em vez disso, deveria olhar também as circunstâncias e as intenções para saber se este ato não poderia, afinal, ser desculpável ou até mesmo obrigatório”.

Para essas teorias, prosseguem, “a consciência poderia, de fato, decidir legitimamente que, em determinado caso, a vontade de Deus para mim consiste em um ato no qual eu quebro um de seus mandamentos. ‘Não cometer adultério’ seria visto apenas como uma regra geral. Aqui e agora, e dadas as minhas boas intenções, cometer adultério seria o que Deus requer realmente de mim. Nestes termos, poderia, no mínimo, elaborar hipóteses de casos de adultério virtuoso, homicídio legal e perjúrio obrigatório”.

Isto significaria, ressaltam os purpurados signatários da carta enviada ao Papa, “conceber a consciência como uma faculdade para decidir autonomamente a respeito do bem e do mal, e a lei de Deus como uma carga imposta arbitrariamente e que poderia, em determinado momento, estar em oposição à nossa verdadeira felicidade”.

Mas a consciência, continuam, “não decide sobre o bem e o mal. A ideia de ‘decisão de consciência’ é enganosa. O próprio ato da consciência é julgar, não decidir. Ela diz que ‘isso é bom’, ‘isso é ruim’”.

“Esta bondade ou maldade não dependem dela. A consciência aceita e reconhece a bondade ou a maldade de uma ação e, para fazer isso, ou seja, para julgar, a consciência necessita de critérios, depende inteiramente da verdade”.

Nessa linha, destacam, “os mandamentos de Deus são uma grata ajuda oferecida à consciência para apreender a verdade e assim julgar segundo a verdade. Os mandamentos de Deus são expressões da verdade sobre o bem, de nosso ser mais profundo, abrindo algo crucial em relação a como viver bem”.

F: ACIDIGITAL